Beleza sem padrão

jul 17 2021

Beleza sem padrão

Quem nunca se sentiu desconfortável com sua aparência ou buscou pertencer a um padrão que atire a primeira pedra. Será que podemos fugir da discussão de beleza e padrões? O tema é de extrema importância para a área de consultoria de imagem e para o contexto atual. Trago alguns conceitos que considero fundamentais para a nossa discussão. 

O que é beleza? 

Pela etimologia, a palavra beleza é originada do latim “bellus”, a ideia de bonito, belo, encantador e o sufixo – “eza” para atribuir relação. A palavra beleza quer dizer, então, o que está relacionado com o belo. [1] 

Mas a beleza não é uma só. Existe uma forte influência dos padrões sociais, estéticos e subjetivos para entender sua manifestação. Esses padrões são influenciados pelas condições e circunstâncias socioculturais de uma época. Então, o conceito de beleza e a sua relação social mudam conforme o tempo e lugar. 

A beleza ao longo da história e os padrões

Vejam que na pré-história, mulheres obesas tinham o tipo físico ideal, pois significava que eram bem nutridas, o que supostamente as tornava melhores para procriar. Em outras épocas, como no renascimento, a gordura também era sinal de poder aquisitivo e classe social. [2] 

Com filósofos como Pitágoras, Aristóteles e Platão, vieram os padrões de beleza baseados na arte e que incluíam conceitos matemáticos de proporção e simetria. [3] 

Em outros momentos, novas vertentes surgiram, como a do filósofo Kant que trouxe o entendimento que belo é o que agrada universalmente, sem relação com qualquer conceito. [4] Outra visão inclui o intelecto e o estilo de vida das pessoas para definir o que é belo e não mais apenas a aparência do corpo em si. 

Com o passar dos anos, vimos os padrões de beleza serem transformados, mas levando ainda como referência a arte, dessa vez nas revistas, cinemas e novelas. 

Desde sempre existiram padrões de beleza na sociedade.
O grande risco atualmente é a busca por padrões que considero opressivos. 

A atuação da mídia e o advento das redes sociais intensificaram a exposição desses padrões, que passaram a ser vendidos como se fossem algo a ser seguidos e alcançados a qualquer preço. Somos bombardeados o tempo todo por corpos, rostos e pessoas “perfeitas” e isso se reflete no aumento da busca por procedimentos estéticos e intervenções para alterar os corpos e os rostos. 

“Nos últimos cinco anos, as despesas com o consumo duplicaram, a pornografia se tornou o gênero de maior expressão, à frente dos discos e filmes convencionais somados, e trinta e três mil mulheres americanas afirmaram a pesquisadores que preferiam perder de cinco a sete quilos a alcançar qualquer outro objetivo. Um maior número de mulheres dispõe de mais dinheiro, poder, maior campo de ação e reconhecimento legal do que antes. No entanto, em termos de como nos sentimos do ponto de vista físico, podemos realmente estar em pior situação do que nossas avós não liberadas. Pesquisas recentes revelam com uniformidade que em meio à maioria das mulheres que trabalham, têm sucesso, são atraentes e controladas no mundo ocidental, existe uma subvida secreta que envenena nossa liberdade: imersa em conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle.” [6] 

Infelizmente, a maioria dos padrões atuais são irreais e acabam por gerar transtornos alimentares e causam distorções de imagem que acabam por reforçar preconceitos e trazer à tona sentimento de frustração e de não pertencimento.

Vejam bem, eu mesma já fiz alguns procedimentos e entendo que são necessários em alguns casos, desde que a busca não seja para se transformar em outro. Essa é justamente a linha tênue entre o que nos é imposto pelos padrões de beleza e o que é suficiente e necessário para nos fazer felizes com nossa aparência. 

Somos simétricos? 

Um dos parâmetros utilizados desde a escola pitagórica até os dias atuais é o conceito de simetria. Acho fundamental esclarecer esse conceito. Simetria significa que as duas partes de um elemento são iguais, podendo ser sobrepostas, de forma que coincidam. Algumas formas geométricas, objetos artísticos, itens presentes na natureza ou mesmo corpos humanos são simétricos. No caso do corpo ou rosto humano, a simetria é associada à harmonia das formas e, portanto, à beleza.” [7] 

Somos nós simétricos? A resposta é não mesmo! Levando em consideração o rosto, ao traçar uma linha ao meio, por certo teremos repetição dos elementos, como citado acima. Mas somos assimétricos! Podemos ter uma sobrancelha, um olho ou o canto superior da boca mais alto de um lado do que o outro. 

Existe algo errado nisso? De jeito nenhum! A grande preocupação são pessoas querendo mudar seus rostos por conta de uma assimetria sutil por acharem que é importante estar dentro dos padrões de simetria impostos. 

Existe um padrão? 

Mas, e o que é um padrão? É uma “base de referência que é usada para determinar as qualidades ou características de alguma coisa; norma” [8].  Entretanto, quem já estudou qualquer coisa sobre seres humanos sabe que somos diversos e múltiplos. Vê-se, então, que isso de existir um padrão já cai por terra. 

Voltando à atuação da mídia, as campanhas publicitárias são quase sempre feitas por modelos magras e jovens, muitas vezes até menores de idade. Como a mulher pode se reconhecer? Será que uma modelo de 14 anos sem ter passado por transformações – hormonais, corporais, envelhecimento da pele – representam uma mulher de 35, 40, 50, 60 anos? Claro que não!

Essa semana ao andar pelo shopping para fazer pesquisa, me chamou a atenção uma única loja que tinha uma mesma vitrine um manequim preto e outro gordo. Na maioria dos expositores, os manequins são brancos, prateados e magros, com corpos irreais. Como a cliente se sentirá bonita ou sentirá que faz parte se ela não se vê em uma vitrine, por exemplo? 

Poderá alguém ser considerado como não belo por não pertencer a um padrão? Muitas vezes sim. Mas me pergunto: Isso é correto? Ninguém escolhe nascer com determinada cor de pele, com determinado cabelo ou com determinada forma corporal. Já que não é algo escolhido, merece ser desqualificado por isso? A minha resposta é não. Além do mais, o estabelecimento de um padrão de beleza em nada contribui para o respeito às diferenças. Pelo contrário, vai na contramão. 

Beleza na diversidade 

Além de tudo já dito, o conceito de belo e feio são subjetivos. Isso deve ser plural, ou seja, incluindo as diferenças. Acredito que a beleza está exatamente na diversidade. E isso é o que bem encontramos no Brasil. Um país tem que como forte característica a diversidade cultural, de sotaques, de cor de pele, de cabelos, de corpos. 

Podemos continuar julgando a beleza das pessoas levando em consideração conceitos antigos? Olhe ao seu redor… o que você vê? Quem são as pessoas que estão à sua volta? Como elas são? O que as torna únicas? 

Vejo a consultoria de imagem como um espaço para as mulheres se reconhecerem na sua integralidade: nos seus corpos, seus cabelos, sua pele. Por isso, acredito que uma forma de incluir e mudar isso é quebrar a nossa visão da importância de existir um padrão. 

As minhas clientes, mulheres em sua maioria, transitam entre as diferentes características. A abordagem com cada uma é diferente por se tratar de um olhar individualizado. Mas, uma coisa se repete: a necessidade de me esvaziar de minhas crenças e gostos pessoais para abrir espaço para acolher e fazê-las abraçar suas próprias belezas. Cada dia é um aprendizado diferente. Um olhar que venho desenvolvendo e aprimorando ao longo desses quatro anos de atuação. Pouco tempo? Talvez, por isso falo que estou sempre aberta ao aprendizado. 

Muito já avançamos nesse sentido, mas ainda existem profissionais que não se abriram para esse olhar. Tudo bem! Ainda é tempo para isso. É preciso ter um olhar aberto para a diversidade. Isso não pode ser usado como a sustentabilidade, que é citada muitas vezes por finalidade comercial. Tem que ser real! 

“Quando a gente aprende a se identificar, se aceitar e se amar em toda completude, é o que eu chamo de beleza que vem da alma. E, quando isso acontece, a gente está pronta para mudar o mundo.” (Referência ao meu artigo: Se a beleza pode curar, sustentar e transformar, imagine quando ela aflora da alma) 

E você, o que anda fazendo para que a transformação exista?

REFERÊNCIAS: 

[1] Disponível em: https://etimologia.com.br/beleza/. Acesso em 01/07/2021. 

[2] LIMA, GRAZIELE: Afinal, o que é ser belo? Disponível em: http://obviousmag.org/graziele_lima/2016/afinal-o-que-e-ser-belo.html.Acesso em 01/07/2021

[3] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Beleza#cite_ref-phrase_3-0 . Acesso em 01/07/2021. 

[4] Disponível em: https://www.estudantedefilosofia.com.br/conceitos/estetica.php. Acesso em 01/07/2021. 

[5] Disponível em: https://www.significados.com.br/proporcao-aurea/. Acesso em 01/07/2021. 

[6] WOLF, Naomi: O Mito da Beleza, 2018. 

[7] Disponível em: https://www.stoodi.com.br/blog/dicas-rapidas/o-que-e-simetria/. Acesso em 01/07/2021. 

[8] Disponível em: https://www.lexico.pt/padrao/. Acesso em 01/07/2021.


Este artigo foi escrito pela associada Larissa Menezes


Apaixonada por beleza e estética desde a pós-graduação em fisioterapia dermatofuncional. Migrou para o mercado de moda e formou-se em Design de Moda no IED Rio-Barcelona. É consultora de imagem e pauta seu trabalho na humanização, redescoberta da beleza e consumo consciente. Atual líder do núcleo Nordeste da AICI Brasil.


Foto da capa de Antonius Ferret no Pexels


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