A moda está mudando.
E não apenas porque novos estilos, materiais ou comportamentos chegam ao mercado. A transformação acontece também nos bastidores: na maneira como os produtos são desenvolvidos, produzidos, rastreados, comercializados e, cada vez mais, no que acontece com eles depois do uso.
Foi uma dessas questões que me chamou a atenção durante o SP2B, evento do qual participei a convite da AICI Brasil. Entre as palestras, uma delas trouxe uma discussão sobre sustentabilidade na indústria têxtil e abordou temas que já começam a interferir diretamente na maneira como pensamos os produtos de moda: resíduos têxteis, rastreabilidade, tecnologia, Passaporte Digital do Produto, reciclagem e os desafios para fazer com que os materiais possam retornar ao ciclo produtivo.
A discussão poderia parecer distante da rotina de um consultor de imagem. Não está.
Ela toca justamente em uma questão importante para o futuro da profissão: quanto mais conhecemos a pessoa para quem trabalhamos, mais precisamos conhecer também o universo dos produtos que colocamos em relação com ela.
Conhecer a roupa para além da aparência
O consultor de imagem já trabalha com muitas informações sobre o produto. Conhece tecidos, modelagens, caimentos, qualidade, conservação, proporção, cores e diferentes possibilidades de uso. Sabe avaliar se uma peça conversa com o estilo, o corpo, a rotina e os objetivos de determinado cliente.
Mas a indústria está adicionando novas camadas a esse conhecimento.
Uma peça de roupa tem uma origem, uma composição, uma cadeia de fornecedores e uma história de produção. E terá também, depois do uso, uma nova etapa em sua trajetória.
A rastreabilidade pretende justamente acompanhar parte desse percurso. Tecnologias de identificação e sistemas de informação permitem registrar dados sobre a origem dos materiais e as diferentes etapas pelas quais um produto passou. O passaporte digital do produto surge nesse contexto como uma ferramenta capaz de reunir informações sobre características e trajetória de determinados produtos, ampliando a transparência e facilitando decisões relacionadas ao seu uso, reparação, reaproveitamento ou reciclagem.
Para o profissional de imagem, isso representa uma ampliação de repertório.
Não basta saber que determinada fibra é agradável ao toque, tem bom caimento ou exige uma determinada forma de lavagem. É importante começar a compreender também o que sua composição significa para a durabilidade, para a manutenção e, quando chegar o momento de a peça entrar no ciclo pós-uso, para as possibilidades de seu retorno ao ciclo produtivo.
Esse conhecimento envolve compreender que nem todo material pode simplesmente ser misturado a outro em um processo de reciclagem. Algodão precisa ser direcionado para cadeias compatíveis com algodão; misturas de fibras exigem processos específicos e, em determinados sistemas, devem ser mantidas em composições semelhantes; aviamentos e outros componentes também podem precisar ser identificados e separados de acordo com seus materiais.

O profissional de imagem não precisa dominar os processos industriais de reciclagem. Mas precisa reconhecer que a composição da peça e seus diferentes componentes podem determinar o caminho possível para seu retorno ao ciclo.
Esse conhecimento não transforma o consultor em especialista em engenharia têxtil. Mas o torna um profissional mais consciente do produto com o qual trabalha.
O consultor está dentro da cadeia da moda
É comum pensar na cadeia da moda a partir da indústria, dos fornecedores, das marcas e do varejo. O consumidor aparece no final desse percurso.
O profissional de imagem, entretanto, ocupa uma posição particular: ele está entre o produto e a pessoa.
Seu trabalho começa com a compreensão do indivíduo. Quem é essa pessoa? Como vive? O que deseja comunicar? Quais são suas ambições? Quais são suas inseguranças? Quais são suas necessidades profissionais e pessoais? Que relação estabelece com o próprio corpo, com a aparência e com o consumo?
Mas essa leitura não se completa sem o conhecimento do outro lado da equação: o produto.
É preciso conhecer moda.
E conhecer moda não significa apenas acompanhar tendências.
Moda é linguagem. É comportamento, contexto e cultura. Revela transformações da sociedade, traduz valores, cria códigos de pertencimento e oferece ao indivíduo diferentes formas de construir e comunicar sua identidade.
Por isso, o repertório de um profissional de imagem não pode se restringir às técnicas da consultoria. É importante compreender os movimentos da moda, sua história, seus produtos, seus materiais, suas transformações e também as questões sociais e ambientais que atravessam a indústria.
Quanto mais amplo esse repertório, mais precisa pode ser a leitura feita pelo profissional.
Uma tendência, por exemplo, não é apenas uma cor, uma modelagem ou uma peça que aparece em determinada temporada. Ela pode revelar mudanças de comportamento, novos desejos sociais ou transformações culturais. Cabe ao profissional compreender esse contexto para interpretar o que realmente faz sentido para seu cliente.
Da mesma maneira, uma marca não deveria ser analisada apenas por sua estética ou pelo posicionamento que apresenta em uma campanha. Conhecer sua proposta, seus produtos e, quando possível, suas práticas e compromissos também faz parte de uma leitura profissional mais ampla.
Isso inclui compreender como cada marca se posiciona diante da responsabilidade social e ambiental, quais iniciativas desenvolve e que possibilidades oferece para o retorno de seus produtos ao ciclo pós-uso. Essa informação pode ser relevante para o consultor não apenas ao indicar uma marca, mas também ao orientar o cliente sobre as possibilidades de reuso, revenda, devolução ou reciclagem de uma peça.
A roupa também tem uma saída
Essa mudança de olhar fica muito concreta no trabalho de organização e detox de guarda-roupa.
Quando uma peça deixa de fazer sentido para o cliente, a primeira resposta não precisa ser retirá-la.
Antes disso, é necessário investigar.
Ela pode ser ajustada? Pode ter a barra modificada? Pode ganhar outro caimento? Existe uma forma diferente de combiná-la? Ainda representa a pessoa? O problema está realmente na peça ou na maneira como ela está sendo utilizada?
Muitas vezes, a resposta é recuperar a relação entre aquela roupa e aquela pessoa.
Mas nem sempre.
Há peças que cumpriram seu papel. O corpo mudou, a rotina mudou, a profissão mudou, o estilo mudou. Há roupas que perderam sua função ou que simplesmente não fazem mais sentido naquele guarda-roupa.
É nesse momento que precisamos pensar além do “tirar”.

Tirar para onde?
Essa talvez seja uma pergunta que passe a fazer parte de maneira mais consciente do trabalho do consultor.
Uma peça em boas condições pode ser revendida. Pode encontrar outro usuário por meio de um brechó ou de uma plataforma de revenda. Pode ser doada. Pode ser transformada ou reaproveitada.
Uma peça que já não apresenta condições de uso pode, dependendo de sua composição, de seus componentes e das estruturas disponíveis, ser encaminhada para sistemas de coleta, separação e reciclagem.
O importante é compreender que colocar uma roupa para fora do guarda-roupa não significa necessariamente tirá-la do mundo.
Ela continua existindo.
Pode circular novamente, pode ser transformada ou pode ter seus materiais reinseridos no ciclo produtivo.
O que chamamos de descarte pode, portanto, ser também uma decisão sobre o próximo capítulo daquele produto — e esse capítulo pode significar seu retorno ao mercado de outra forma, ampliando seu uso e contribuindo para a redução dos resíduos têxteis.
O pós-consumo também é parte do trabalho
A discussão sobre moda circular amplia essa responsabilidade.
A lógica tradicional da cadeia é linear: produzir, vender, consumir e descartar. A circularidade propõe outra perspectiva: pensar em como manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível e, quando possível, fazer com que retornem ao ciclo produtivo.
O objetivo não é simplesmente prolongar a existência física de uma peça, mas encontrar caminhos para que produtos e materiais continuem tendo valor e utilidade dentro da cadeia.
Isso depende de uma infraestrutura que não está nas mãos de uma única pessoa. Depende da indústria, das marcas, dos fornecedores, do varejo, do poder público, de tecnologias de coleta e reciclagem e, evidentemente, do comportamento do consumidor.
Mas o consumidor não toma essas decisões sozinho.
É justamente nessa relação que o consultor pode ter uma contribuição importante.
O profissional de imagem ajuda a construir uma relação mais consciente entre a pessoa e seu guarda-roupa. E essa relação não termina quando uma compra é realizada.
Ela continua no uso, na conservação, na manutenção, na reorganização e também no momento em que a peça precisa encontrar um novo destino dentro do ciclo pós-consumo.
Isso significa que conhecer o produto pode ter uma finalidade muito maior do que indicar uma boa compra.
Pode significar saber reconhecer quando vale a pena investir em uma peça de qualidade, quando uma roupa pode ser reparada, quando uma compra atende realmente a uma necessidade e, principalmente, quando uma peça que deixou de servir ao cliente ainda pode servir a outra pessoa ou ter seus materiais direcionados para um novo ciclo.
O conhecimento sobre o posicionamento das marcas também ganha importância. Algumas empresas já desenvolvem programas de coleta, revenda, reparação ou reciclagem de seus produtos. Conhecer essas iniciativas permite ao profissional orientar o cliente de maneira mais responsável e inteligente, considerando não apenas o uso da peça, mas também seu possível retorno à cadeia.

Uma responsabilidade profissional que precisa crescer
Não se trata de atribuir ao consultor a responsabilidade pela sustentabilidade da indústria da moda.
Seria desproporcional.
A responsabilidade é compartilhada por uma cadeia inteira e envolve decisões econômicas, industriais, políticas e sociais.
Mas existe uma responsabilidade profissional que pode, e talvez deva crescer: a responsabilidade pelo próprio conhecimento.
Se trabalhamos com moda, precisamos conhecer moda.
Se trabalhamos com produtos, precisamos conhecer produtos.
Se influenciamos escolhas, precisamos compreender o impacto dessas escolhas.
E se participamos da relação entre indústria e consumidor, não podemos permanecer alheios às transformações que acontecem nessa indústria.
Isso vale para sustentabilidade, mas não apenas para ela.
Vale para novas tecnologias, novos materiais, mudanças de comportamento, modelos de negócio, transformações do varejo, posicionamento de marcas e tudo aquilo que modifica a maneira como as pessoas se relacionam com a roupa.
O profissional não precisa saber tudo.
Precisa, porém, continuar aprendendo.
O futuro da profissão está também no repertório
Talvez uma das questões mais interessantes para o futuro da consultoria de imagem seja justamente essa ampliação.
Continuaremos falando sobre identidade, estilo, comunicação, aparência, proporção, cor e comportamento. Esses fundamentos não desaparecem.
Ao contrário: tornam-se ainda mais importantes quando associados a uma compreensão maior do mundo em que essas escolhas acontecem.
O consultor precisa compreender seu cliente, mas também precisa compreender o mercado.
Precisa reconhecer desejos e receios individuais, mas também entender os códigos culturais que dão origem a esses desejos.
Precisa conhecer uma peça pelo que ela comunica visualmente, mas também pelo material de que é feita, por sua qualidade, sua durabilidade, sua manutenção e pelas possibilidades que existem para que ela continue circulando depois do uso.
Esse conhecimento pode, inclusive, ampliar os espaços de atuação do profissional.
O consultor pode participar de projetos educacionais, treinamentos para equipes de varejo, iniciativas de relacionamento entre marcas e consumidores, desenvolvimento de conteúdo, projetos ligados à sustentabilidade e outras frentes nas quais a compreensão do comportamento e do produto seja necessária.
Isso não significa mudar de profissão.
Significa compreender melhor a profissão que já exercemos.
A indústria está começando a olhar para a trajetória completa de uma roupa: sua origem, sua produção, seu uso e seu retorno ao ciclo. O profissional de imagem pode fazer o mesmo.
Não para controlar as escolhas do consumidor, mas para qualificá-las.
Não para retirar o desejo da moda, mas para compreendê-lo.
Não para transformar o guarda-roupa em um exercício de cobrança, mas para ampliar a consciência sobre a relação que estabelecemos com aquilo que vestimos e sobre o que pode acontecer com esses produtos depois de nós.
Se antes perguntávamos principalmente o que uma roupa comunica sobre quem a veste, talvez seja o momento de acrescentar uma nova pergunta:
O que a roupa revela sobre a cadeia da qual fazemos parte?
O consultor de imagem está entre esses dois mundos. De um lado, a indústria, com sua produção, tecnologia, inovação e transformação. Do outro, o indivíduo, com seus desejos, necessidades, escolhas e comportamentos.
É justamente nesse espaço de encontro que existe uma nova oportunidade para a profissão.
Mais do que indicar produtos, o profissional de imagem pode contribuir para estabelecer relações mais conscientes entre pessoas e produtos. Mais do que atuar sobre a aparência, pode participar de uma conversa maior sobre comportamento, consumo e cultura.
A roupa continua sendo uma forma de expressão. Mas, cada vez mais, ela também será uma história que podemos rastrear, um produto cujo ciclo precisamos compreender e uma escolha que pode produzir consequências muito além do espelho.
Este artigo foi escrito Lan Gonzales





