O Outubro Rosa é uma campanha realizada mundialmente todos os anos no mês de outubro para conscientizar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Em 2024, estimou-se que 2,4 milhões de mulheres no mundo foram diagnosticadas com a doença (Fonte: OMS).
Mas o que acontece com a relação com a própria imagem depois do tratamento? E o que uma consultora de imagem precisa saber ao receber uma cliente que passou por essa experiência? Para falar sobre isso, convidamos a Fê Luchesi, AICI CIC que viveu o câncer de mama e compartilha, a partir da própria experiência, reflexões importantes para quem trabalha diretamente com a imagem de outras mulheres.
Depois do tratamento, o que mudou na sua relação com a própria imagem e se você tivesse procurado uma consultora de imagem logo após o tratamento, o que gostaria que ela soubesse antes mesmo da primeira conversa?
Após tudo que passei, você se vê outra pessoa. Minha vontade era jogar tudo fora e começar do zero. Acredito que muitas passam por essa sensação. O corpo não é mais o mesmo, a cabeça, o cabelo, o rosto…. Eu tinha orgulho do que consegui aguentar, mas muito desanimada com a minha imagem.
Então se uma Consultora fosse me atender seria importante validar meus sentimentos, sem tentar ajudar “amenizando” eles ou querendo dar uma solução. Saber ouvir. Saber que a cor do rosto dela pode mudar por causa do tratamento. Pode ficar mais amarelada ou com mais olheiras, então o teste pode não ser muito preciso. De qualquer forma, vale ela saber a cartela daquele momento, pois é a realidade imediata, e você se disponibilizar para refazer quando ela sentir que a cor mudou.
Outro ponto seria, caso ela tenha colocado silicone, não precisa dizer “agora está turbinada “porque talvez ela ainda não esteja se aceitando, e é uma “cicatriz” de algo muito doloroso. Talvez não fosse o que ela faria se não precisasse. Para isso pode perguntar como ela se sente com isso para sugerir ajustes. Ela também está tendo muitos custos do tratamento, então qualquer investimento é muito desafiador, busque algo para agradá-la, como um mimo a mais para lembrá-la que foi a escolha certa e na hora certa. A hora certa é a hora que ela decidiu e conseguiu pensar nisso.

Palavras comuns na consultoria de imagem, como “disfarçar”, “corrigir”, “equilibrar” ou “valorizar”, podem ganhar outro peso nesse contexto?
Podem sim. Porque não existe característica para esconder, existe efeito visual para escolher. Corrigir pode dar a entender que tem algo errado que tenha que ter vergonha. Eu acredito que a conversa pode ir para o lado do “como eu posso lhe ajudar hoje para lhe fazer se sentir melhor?” Sem usar essas palavras em relação a ela. Sempre tentando achar os pontos de desconforto e conforto para depois sugerir os recursos para tal. E aí, como ela não está se sentindo bem, é muito legal ela sair com os recursos para valorizar e camuflar de acordo com desejo de imagem.
E deixar o “camuflar “como uma caixinha de ferramentas do que pode usar estrategicamente, sem apontar exatamente qual é a área para camuflar. Ela mesma pode aplicar nela depois.
Como encontrar o equilíbrio entre reconhecer o que a cliente viveu e atendê-la simplesmente como uma mulher com desejos, preferências, rotina e objetivos?
Ter esse pensamento é muito importante, mesmo. Basta tratá-la com carinho e empatia. É sempre bom ser reconhecida pela luta e parabenizar pela iniciativa de olhar para si com mais cuidado e carinho. Lembrar que o seu papel é fazê-la ter mais prazer ao se olhar no espelho e estará pronta para o que ela precisar.
Sua experiência com o câncer mudou a maneira como você própria atende ou pretende atender outras mulheres?
Hoje, eu vejo muito mais beleza nos detalhes do que antes. E valorizo mais o tempo. Hoje eu incluo uma pergunta no meu processo sobre algo que balançou a autoestima dela que ela gostaria de dividir. Porque assim eu terei um repertório um pouco mais profundo e importante sobre ela, e posso criar uma conexão maior. Mostra que estou interessada nela e ouvindo com atenção. Hoje, o que falta, no geral, é escuta! Apenas escutar sem querer dar a solução. Apenas abraçar.

Se você pudesse deixar uma única orientação para uma consultora que amanhã receberá uma cliente após um tratamento de câncer de mama, qual seria?
Não tenha pena; tenha respeito e admiração. Elogie a sua atitude de buscar ajuda para se sentir melhor, e que você vai ajudá-la se sentir poderosa o mais rápido possível. Sempre perguntar como está se sentido durante o processo, porque pode ser que algo esteja incomodando e ela não falaria. Apenas engoliria a informação.

Para terminar nossa conversa, Fê quis deixar algumas palavras para quem pode estar do outro lado, atendendo uma mulher durante ou depois desse processo.
“Ter uma consultora ajudaria muito nessa fase de “nova versão”. É uma aceleração para termos nossa dignidade de volta. O que acontece é que, para você conseguir ter cabeça para se olhar com mais carinho e querer contratar alguém, pode já ter passado bastante tempo do tratamento, porque a nossa cabeça está com as necessidades básicas da base da pirâmide e a autoestima está muito para cima.
Por isso se você conhecer alguma conhecida que está passando pelo processo de cura, pergunte se tem algo que você possa fazer para ela se sentir melhor. Você entrega para ela algo que já possa lhe ajudar de graça e, depois, mostre outras possibilidades se ela quiser se aprofundar e contratar você. Mas seja genuína. Esse tipo de postura e mentalidade vai lhe deixar muito mais atenta para atender clientes que passaram por algum trauma.
Se você leu até aqui, realmente está de coração aberto para poder acolher esses clientes. Caso tenha alguém do seu meio passando por isso, e queira dividir desafios e dúvidas comigo, fique à vontade. Ou mesmo passar meu contato para ela conectar com quem já passou pelo desafio. Assim lhe ajudo para que ela veja o benefício do seu trabalho.
Com carinho.
Fê Luchesi, AICI CIC.”





