Por que ainda valorizamos mais a moda estrangeira? O papel da consultoria de imagem na valorização do produto nacional

A moda nunca foi apenas sobre roupas. É uma linguagem, uma forma de comunicação não verbal e um instrumento de construção de identidade, pertencimento e distinção social. Compreender o valor que atribuímos ao produto nacional exige antes de mais nada, observar e entender os códigos culturais que influenciam nossas escolhas de consumo.

No Brasil, as desigualdades sociais e o desejo de pertencimento tornam essa discussão especialmente complexa. Marcas e referências estéticas ultrapassam sua função material e passam a representar reconhecimento e acesso social, como acontece no mundo desde a Idade Média.

O desafio é compreender por que ainda atribuímos ao estrangeiro um valor que nem sempre reconhecemos na produção brasileira.

Movimento Sou de Algodão, São Paulo Fashion Week, 17/11/2022

Pertencimento, distinção social e valor simbólico

A relação entre moda e distinção social acompanha a história do vestir. Na Europa durante a Baixa Idade Média, grupos burgueses que conquistavam poder econômico, passaram a incorporar elementos associados à nobreza, reproduzindo tecidos, silhuetas e códigos estéticos antes restritos às elites. Quando essas referências se disseminavam, os grupos privilegiados buscavam novas formas de diferenciação.

Essa dinâmica permanece até hoje na moda contemporânea. Marcas, materiais, acabamentos e referências culturais funcionam como sinais de distinção. O nome estampado em uma etiqueta pode importar mais do que as características da peça, comunicando repertório, poder econômico e familiaridade com determinados universos sociais.

O desejo de pertencimento também ajuda a explicar o valor atribuído às marcas. No livro Coisa de Rico, o antropólogo Michel Alcoforado analisa códigos sociais associados aos grupos de maior poder aquisitivo e a maneira como comportamentos, objetos e referências funcionam como sinais de reconhecimento. Na moda, uma peça de determinada grife pode atuar como um passaporte simbólico para ambientes nos quais a marca é reconhecida. Seu significado ultrapassa a qualidade material e envolve status, distinção e familiaridade com um universo social específico.

Em uma sociedade desigual, esses símbolos podem representar conquistas e reconhecimento para quem busca ascensão social. O problema surge quando o valor simbólico de uma marca é confundido com uma superioridade objetiva de seu produto. Uma grife estrangeira pode oferecer qualidade excepcional, assim como uma marca brasileira pode desenvolver peças com materiais nobres, acabamento cuidadoso, design autoral e produção limitada. A nacionalidade, isoladamente, não determina o que é melhor ou pior.

A herança da desvalorização nacional

Outro ponto importante para compreendermos essa questão, é que o Brasil tem uma relação histórica particular com os produtos estrangeiros. Durante boa parte do século XX, o mercado brasileiro foi relativamente fechado às importações. A abertura econômica iniciada no começo dos anos 1990, ampliou o acesso a produtos internacionais e contribuiu para associar o consumo estrangeiro à modernidade, à qualidade e à sofisticação. O que vinha de fora passou a representar, em diferentes segmentos, o acesso a um universo considerado mais avançado. Essa associação ainda influencia a maneira como avaliamos marcas e produtos.

Fila final da Artemisi, SPFW N56, 2024. Foto: Agência Fotosite.

Ao mesmo tempo, nesse período, a moda brasileira também se transformou. O Phytoervas Fashion, em 1993, seguido pelo Morumbi Fashion Brasil e pela consolidação da São Paulo Fashion Week, ajudou a estruturar o calendário nacional, profissionalizar o setor e ampliar a visibilidade de estilistas e marcas, inclusive no exterior.

Apesar dessa evolução, persiste o que Nelson Rodrigues denominou “complexo de vira-lata”: a tendência a considerar o estrangeiro superior ao nacional.

Reconhecer a produção brasileira a partir do olhar estrangeiro

Valorizar a moda brasileira não significa idealizar tudo o que é nacional, assim como reconhecer a qualidade de produtos estrangeiros não implica considerá-los superiores. O ponto central é compreender por que a origem de uma peça, ainda interfere tanto em seu valor percebido.

O projeto Proud South, da trend forecaster holandesa Lidewij Edelkoort, evidencia essa contradição ao destacar a força criativa do Sul Global, valorizando artesanato, materiais regionais, práticas ancestrais e referências culturais que nem sempre recebem reconhecimento em seus territórios de origem.

Muitas vezes, parece necessário que um olhar estrangeiro reconheça aquilo que é nosso para que passemos a enxergar seu valor. A questão não é rejeitar a validação internacional, mas entender por que ela ainda exerce tanta influência sobre nossa percepção.

AMMI, SPFW N61. Fotos: Zé Takahashi/ Agência Fotosite

Nesse mesmo sentido, o chamado Brazil Core, tendência que ganhou visibilidade internacional nos últimos anos, exemplifica esse movimento ao colocar em evidência elementos da estética e da identidade brasileiras.

Mais uma vez, símbolos nacionais parecem adquirir outro significado quando circulam em contextos internacionais. O reconhecimento externo amplia sua visibilidade, mas também evidencia uma contradição: por que determinadas referências parecem ganhar valor quando legitimadas por outros mercados?

Será que a “grama do vizinho é necessariamente sempre mais verde”?

O Brasil reúne marcas autorais, designers independentes, ateliês e produtores que exploram materiais, técnicas e referências culturais próprias, com possibilidades criativas que não dependem da reprodução de modelos estrangeiros.

A entrada do ultra fast fashion e a percepção de preço

Essa hierarquia também aparece na comparação entre marcas brasileiras autorais e produtos de rápida rotação, especialmente os da ultra fast fashion. Acostumado a encontrar roupas a preços muito baixos em plataformas digitais, o consumidor pode considerar caro um produto nacional desenvolvido em menor escala, com atenção à modelagem, à escolha dos materiais e à remuneração da mão de obra.

São modelos de negócio distintos: o preço final envolve escala, tributação, desenvolvimento, matéria-prima, logística e remuneração. Comparar preços sem considerar esses fatores não revela necessariamente o valor de cada produto. A percepção de que uma peça brasileira é cara apenas por custar valor próximo ao de uma grife internacional merece reflexão: se ela apresenta identidade própria, qualidade e proposta autoral consistente, por que sua origem deveria diminuir o valor que lhe atribuímos?

O papel dos profissionais de moda e imagem

A consultoria de imagem está diretamente relacionada a essa discussão porque trabalha com a construção da imagem pessoal, a comunicação não verbal e a coerência entre identidade, estilo de vida e escolhas estéticas. O repertório do profissional influencia as possibilidades apresentadas ao cliente e as referências que passam a integrar seu universo de consumo.

A formação em moda e imagem recorre historicamente a referências internacionais, sobretudo europeias e norte-americanas. Esse repertório é fundamental, mas se torna limitador quando é reproduzido sem análise crítica de sua adequação ao contexto brasileiro.

Conhecer a produção nacional amplia a leitura de mercado e permite identificar soluções que dialogam com diferentes corpos, climas, culturas, estilos e realidades econômicas. A avaliação técnica de uma peça deve considerar composição têxtil, acabamento, modelagem, durabilidade, adequação ao uso e custo por utilização, além da marca e da origem. Esses critérios ajudam o consultor a orientar escolhas com mais informação e coerência com as necessidades do cliente.

Fellipe Ditadi (iStock)

Essa diversidade, que vai de grandes empresas a pequenos ateliês, costureiras, artesãs e designers independentes, oferece propostas para diferentes orçamentos e revela modos de produção pouco visíveis diante das grandes marcas internacionais. Se fica fora do repertório dos profissionais de imagem, também tende a aparecer menos nas recomendações aos clientes.

Por isso, valorizar o produto nacional passa pelo reconhecimento de sua diversidade, pela compreensão de suas características e por sua inclusão no debate profissional sobre moda e consumo. Não se trata de recomendar uma marca por ser brasileira, mas de ampliar as opções e avaliar cada produto com critérios técnicos, sem preconceitos de origem.

Consumir também é comunicar

O comércio eletrônico ampliou o acesso a produtos de diferentes partes do mundo e tornou as escolhas de consumo ainda mais significativas.

Ao decidir onde gastar, o consumidor contribui para direcionar recursos, visibilidade e reconhecimento a empresas, profissionais e modelos de produção. Preço, disponibilidade, necessidade, conveniência e condições financeiras continuam determinando muitas compras. Ainda assim, nossas escolhas ajudam a fortalecer determinados mercados.

Na consultoria de imagem, essa reflexão amplia a compreensão da imagem pessoal para além da aparência. As escolhas de vestir comunicam identidade, pertencimento e posicionamento, mas também revelam referências culturais e percepções sobre qualidade, prestígio e valor.

Paulo Duarte (Pixabay)

Valorizar a moda brasileira não exige fechar os olhos para o que vem de fora, nem transformar a origem em critério absoluto de escolha. Significa reconhecer que a produção nacional deve ser avaliada por sua criatividade, qualidade, identidade e capacidade de atender às necessidades do consumidor, e não por uma hierarquia historicamente construída em favor do estrangeiro.

Em um mercado globalizado, ampliar o repertório é parte essencial do trabalho dos profissionais de imagem. Afinal, antes de decidir o que vestir, também fazemos escolhas sobre o que consideramos relevante, desejável e digno de reconhecimento. Essas escolhas dizem muito sobre nossa relação com a própria cultura e com o mundo.

Silvia Scigliano, AICI CIC é Consultora de Imagem especialista em tendências há 18 anos. Referência no mercado brasileiro por sua visão global e experiência em diversos setores da moda. Morou cinco anos em NY, onde atuou no varejo e atacado, dedicou-se à consultoria de imagem e tendências e se certificou pelo Fashion Institute of Technology. Sua vivência profissional deu origem a cursos, mentorias, consultorias e palestras para empresas e profissionais em todo o Brasil, incluindo Coolhunting na FAAP e Consultoria de Imagem no IED e Centro Europeu. Criou o NY Fashion Tour e o The Trends Club. É membro certificada da AICI desde 2008 e foi presidente do capítulo brasileiro entre 2020 e 2022. Também é coautora do livro À Sua Moda.

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